O inferno são os outros

O inferno são os outros: Há uma frase bastante famosa de Sartre, presente em uma das peças de teatro que ele escreveu, chamada Entre quatro paredes ( Huis clos no original francês), que pode resumir o ponto de vista do autor sobre intersubjetividade. “o inferno são os outros”.

A primeira vista, lemos essa frase como um atestado de pessimismo quanto ao sucesso das relações humanas.

Em sua principal obra, O ser e o nada, Sartre aponta que a característica essencial do homem é a sua liberdade radical.

Há um famoso jargão existencialista que diz, no homem “a existência precede a essência”.

Bem resumidamente falando, isso significa que, para um existencialista:
  • o homem primeiro nasce
  • passa a existir no mundo
  • no decorrer de sua vida, ele constrói algo que possa ser chamado de sua “essência”, aquilo pelo qual identificamos cada pessoa em particular.
Essa “essência” se forma basicamente pelas escolhas que cada um de nós faz ao longo de nossas vidas (valores, profissão, a forma de se relacionar com os outros, opiniões, gostos, crenças, etc.).
Ainda na peça Entre quatro paredes, Sartre afirma que, afinal, um homem:
“nada mais é do que a soma das escolhas que fez durante sua vida”.
É nesse movimento que nossa existência pode ganhar um sentido que, a priori, ela não tem.
Se o homem é fundamentalmente livre, mesmo alguém mantido sob a mais cruel dominação, no fundo permanece livre em seu ser, em sua consciência.
Quer dizer:
  • um homem jamais conseguira dominar plenamente o outro, penetrar plenamente em sua consciência, sempre haverá lá uma resistência, um resquício de liberdade.

O inferno são os outros: Em outros termos

Um homem nunca pode ser reduzido completamente a condição de um objeto, a isso sempre haverá uma espécie de oposição por parte de nossa consciência, oriunda de nossa liberdade radical.

Nesse sentido, as relações humanas são a principio, conflituosas:

Quando encontro o outro, há um confronto entre minha liberdade e a dele.
Porém, e isso é importante, esse conflito não é tudo.
Eu preciso do outro, por exemplo, para me conhecer plenamente, para escapar ao que Sartre chama de má-fé, essa espécie de mentira que contamos a nos mesmo para fugir da angustia, que se origina da responsabilidade que temos por nossas escolhas (vou dar um exemplo bem grosseiro, mas que pode ajudar:

Fui tratado de uma forma que me chateou.

Porém, agi feito um idiota com a pessoa e isso fez com que ela me tratasse de uma forma que me desagradou.

Para Sartre, é preciso que ajamos autenticamente, é preciso que eu assuma a responsabilidade de que fui tratado mal porque fiz por merecer esse tratamento.
No entanto, frequentemente agimos de “má-fé”, e tentamos nos enganar, por exemplo:
  • Dizendo que fomos tratados mal porque somos incompreendidos e não tivemos culpa nenhuma pela reação da outra pessoa.
O olhar alheio é responsável por nos ajudar a escapar de tentação da má-fé, ele é responsável por dizer quem somos, e não quem pensamos ser – o que é fundamentar se quisermos melhorar, crescer, evoluir em todos os aspectos. Isso para não falar do necessário processo de socialização, sem o qual não conseguiríamos sobreviver.
Assim na perspectiva sartriana, não há relação humana que não carregue em sim mesma um germe de tensão.

“O inferno são os outros”

Para Sartre, significa justamente isso: porque o outro também é livre, não podemos controlar completamente o que ele pensa, o que ele nos diz, o limite que ele impõe a nossa liberdade (o que frequentemente gera conflito), mas ao mesmo tempo (daí vem a tensão), preciso dele, de seu olhar (ainda que muitas vezes, esse olhar veja algo em nós que não gostamos), para me conhecer e poder agir no mundo, pois apenas por nossas ações (sobretudo as que interferem positivamente na vida dos outros), e no nosso contato intersubjetivo autentico (que ocorre quando encaro o outro com um ser igualmente livre, e não como um simples objeto), que podemos superar nossa situação de dar um sentido legitimo a nossa existência.
Naturalmente, o que fiz nesse texto foi expor de maneira bastante superficial, alguns tópicos que nos chamam a reflexão. Além disso, em Filosofia sempre é bom ressaltar, toda teoria é passível de criticas e retificações.
No entanto, a perspectiva filosófica de Sartre sobre as relações com os outros traz alguns elementos importantes para pensarmos.
No fundo o que a teoria sartriana coloca é que se o homem é livre, toda relação humana baseia-se numa escolha de cunho moral, quer dizer, na forma como escolhemos ver e nos relacionar com outro.

Ao fim e ao cabo, segundo Sartre, a ultima palavra compete a cada individuo, mas com base no que foi exposto, você poderia questionar:

Numa sociedade altamente individualista como a nossa, na qual a maioria das pessoas é vista como uma simples mercadoria, ou como numero para estatísticas, como conjugar a nossa liberdade com respeito e a afirmação da liberdade do outro?

Quer dizer, é possível, na existência cotidiana de um modo geral que a necessidade de relações autênticas, de relações que compreendam o outro em sua particularidade, sem “coisificá-lo”, se sobreponha a esmagadora ideologia do “cada um por si” que sob a mascara da imprescindível defesa da liberdade individual, nos conduz a barbárie do egocentrismo exacerbado?

Não somos levados, por conta das exigências de nossa “situação” a sempre privilegiar o conflito em detrimento da solidariedade?

Eu responderia dizendo que, para Sartre, embora seja particularmente possível que haja relações autênticas, mesmo diante desse quadro, a única saída de fato eficaz é superar coletivamente a atual conjuntura, em direção a uma sociedade que nos dê as bases para travarmos relações mais autênticas, livre do peso de individualismo e da luta diária pela sobrevivência.

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