O boxe foi a knock out?

O boxe foi a knock out



É triste pensar que o boxe morreu.

 
Boxe é uma arte, é força e beleza. É a concretização máxima das possibilidades do corpo humano em um campo específico. É um dos mais básicos instintos humanos, o da agressão física, da destruição do outro, e para conseguir isso é preciso técnica, é preciso dominar os movimentos de agressão e de defesa.
O fato é que boxe é, acima de tudo, violência, e é a aceitação disso que torna possível a apreciação do esporte. Porque no fim não importa se um lutador tem melhor jogo de pernas, boa esquiva e domínio perfeito dos fundamentos, se o outro lhe der um bom direto no queixo e ele beijar a lona, nada daquilo valeu coisa alguma.
Grandes campeões tinham essa combinação de técnica e força. Joe Louis, George Foreman, Joe Frazier, Rocky Marciano. E ninguém as teve mais do que Muhammad Ali, (float like a butterfly, sting like a bee), ele dizia, e até hoje há poucas coisas tão perfeitas quando Muhammad Ali no ringue, esquivando-se, jabeando. Ele foi o último grande gênio do boxe — na verdade foi o maior de todos. Aquele em que todo e qualquer lutador deveria se espelhar. Ali foi perfeito em sua categoria, um mestre absoluto daquilo que torna o boxe, mais que uma luta, uma arte.
Foi isso o que aprendi assistindo às lutas daqueles grandes lutadores. O que eu não entendia era que a cada nova luta, eu via o declínio do boxe.
O boxe foi a knock out

 

Desde a aposentadoria de Muhammad Ali, cada novo campeão era mais fraco que o anterior e para piorar as coisas o MMA (Meu Macho Arrebate-me) está ocupando o espaço que deveria ser da nobre arte do Marquês de Queensberry.
O MMA está para o boxe assim como a dança da galinha está para o balé, como o funk carioca está para Mozart. Um arremedo de dança do acasalamento homossexual, o MMA é o retrato de uma época em que o que importa é sempre e apenas o resultado. Não importa que para isso seja necessário dar uma cotovelada no rosto do oponente ou uma joelhada em seu estômago. Se o boxe tem a beleza estética que decorre da sistematização e da limitação das possibilidades da agressão, o MMA é apenas violência rasteira. E feia. E completamente homossexual.
Badminton e nado sincronizado  são esportes mais masculinos que esse MMA. Até patinação no gelo é mais masculino, porque eventualmente o patinador com seus paetês e suas calças justas vai sentar a moça em seus ombros, os dois frente a frente, e vai lembrar a todos uma das melhores razões pelas quais é bom ser homem.


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Enquanto isso lutadores de MMA fazem meia-noves intermináveis com a voracidade de um amor vespertino e urgente, cabeças enfiadas com sofreguidão nas virilhas dos seus parceiros, e na falta de outros fluidos se contentam com a urina em seus calções.

MMA é um sujeito dizendo para o outro “vem e me domina, meu homem”. Por baixo, o sujeito aperta com as pernas os quadris do seu amor com força, chama-o para si, e os abraços são fortes e esganados e desesperados, “diz que eu sou teu”. Não é à toa que um dos movimentos ali se chama submissão. É um sujeito meio depravado dizendo para o seu objeto de desejo “vem, cachorro, eu sou o teu senhor, faz a minha vontade”, variação sadomasoquista de uma relação de domínio. MMA é sexo selvagem, sem limites, em que o cheiro do sangue se torna o maior afrodisíaco imaginável.
Eu me nego a me contentar com o MMA, eu que vi grandes lutadores darem o melhor de si nos ringues. Mas há uma esperança. Enquanto o MMA é sublimação homoerótica de mariposas enrustidas, o boxe é praticado em academias da periferia. E eu acredito que um dia um novo Muhammad Ali apareça no ringue para dizer que é o rei do mundo. Esse dia vai chegar.

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